Fotografia: By Rosino - Flickr: [1], CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=18357171
Portugal habituou-se a governar em blocos de quatro anos. Todo o planeamento estratégico, toda a visão reformista, se é que se lhe pode dar esse nome, é desenhada a pensar no próximo ciclo eleitoral ou, na melhor das hipóteses, na próxima tranche de fundos comunitários.
O futuro de um país, porém, não cabe numa legislatura. As escolas que abrimos hoje formam os trabalhadores daqui a quinze anos. As cidades que planeamos agora condicionam a vida de uma geração. A infraestrutura de hoje determinará durante décadas onde se instala uma empresa, onde nasce uma família ou onde permanece um jovem.
O preço da instabilidade permanente, alimentada por governos curtos, escândalos e a sombra constante do que poderia ser um bloco central, criou um Estado inerte, anestesiado por uma cultura onde o mérito continua a ser ultrapassado pelos tachos e tachinhos, amigos e cunhas. As portas abrem-se de acordo com o dono da chave e não com a chave em si e, assim, mudamos 3 vezes de rumo antes de chegar ao destino inicial.
Não é o crime em si que está em causa, não temos de fazer uma perseguição nem pôr outdoors em todas as rotundas com as caras daqueles que todos sabemos quem são. O que está em causa é um elevador social que ficou sem eletricidade, e um Estado incapaz. Incapaz de decidir e de cumprir, de executar e de reformar e, sobretudo, de manter uma direção quando o plenário muda de cor.
Durante décadas, vendeu-se a promessa de que o canudo seria a chave de acesso à prosperidade. Estudar e trabalhar deixou de garantir uma vida melhor, a construção de um projeto, ou sequer a conquista de uma casa própria. A frustração da geração mais qualificada de sempre traduz-se em salários que não cobrem uma renda, na escolha forçada da emigração ou numa segurança social rota, sustentada pela imigração descontrolada.
Não se trata apenas da fuga de cérebros, o sentimento de pertença desfaz-se quando a pátria se transforma num espaço de passagem ou de estagnação. As cidades médias que conseguiram criar qualidade de vida sem conseguir criar, na mesma proporção, uma economia capaz, dependem sobretudo dos serviços. A indústria é invisível, o valor acrescentado é pouco e as oportunidades continuam concentradas nos polos litorais. É urgente fazer do interior uma região suficientemente dinâmica para que se possa estudar, trabalhar, empreender, constituir família e viver sem ressentimentos, e assim alcançar um país verdadeiramente coeso.
E é este desespero que faz florescer uma extrema-direita que se apercebeu da distância entre o governador e o governado, e vende um falso nacionalismo, passível de ser reduzido a ruído e a ódio. Em situação alguma funcionou esta receita, que toda a vida serviu o único propósito de mascarar a ausência de soluções reais.
Querer um Portugal mais confiante não exige fechá-lo, pelo contrário. Um patriotismo moderno pode e deve ser profundamente europeu, aberto à integração e à livre circulação, sem abdicar da ambição de construir aqui condições para ficar.
Lanço assim o fio condutor da série “Portugal 2031”, que não questiona onde estaremos daqui a 5 anos, mas parte do mote:
Que caminho está a tomar o país das dezenas que ainda hoje vieram ao mundo?
Nas próximas semanas, tentarei descortinar, ponto por ponto, o sistema que atrofiou o rumo da nação, do Estado à economia, das cidades à demografia, da educação à habitação, da produtividade à capacidade de atrair e reter talento, concluindo por modelar os cenários possíveis para a próxima década.
